terça-feira, agosto 01, 2006

Remoção

Cravo as mãos sobre a esquerda do meu peito e pressiono com crescente força até sentir a carne penetrada pelas unhas. Fundo, cada vez mais fundo e sinto o sangue quente começar a escorrer por mim abaixo. Mobilizo todas as forças e continuo a enterrar as unhas. É tal o afinco com que o faço que me apercebo que os nós posteriores dos dedos já estão a entrar carne adentro e a tocar as costelas. Reteso os músculos do peito e forço mais as mãos a entrar na carne. Rodeio duas costelas com cada uma das mãos. Duas costelas sobre o coração. Afasto-as e com elas mais mais um pouco da carne do peito. Oiço o estalar dos ossos e institivamente olho para a proveniência do som. Arrepio-me com a cratera que provoquei em mim. Não esmoreço apesar da dor intensa que me alaga. O caminho para o coração está mais aberto que nunca. Obrigo-me mais ainda a abri-lo. Até que as mãos entranhadas na carne quente podem alcançar a pulsão de toda a minha vida. O motor, a fornalha.
Agarro no meu coração e sinto-o bater entre as mãos trémulas. Sinto o seu bater. Sangue que entra, sangue que sai. Vida que se recicla a cada batimento. Puxo-o. Puxo-o com todas as minhas forças e sinto-o cá fora. Tirei o coração do peito. Desprovo-o de todos os tubos que me alimentam. Impeço-o de renovar a minha vida. Será momentâneo. Olho-o ainda a pulsar entre as mãos. Falta pouco. Reuno toda a coragem, que ainda vai circulando em mim, nas minhas mãos e rasgo o coração. Introduzo-lhe os dedos bem lá dentro. Bem lá no fundo. Esgravato, rebusco, procuro, arranho.
Vou retirando pedaços e pedaços de uma substância quente e melosa. Retiro tudo aquilo que te poderia dar mas que apodrecia dentro do meu coração. Retiro aquilo que se disseminava e me apodrecia o corpo. Retiro-te de mim. Retiro o amor. Retiro o amor por ti. Retiro para nunca mais o sentir. Por ti, por mais ninguém. Acabou-se o amor que nunca era depositado, que sempre foi recusado. Estou mais leve. Mais frio. Mais morto.
Volto a ligar os canais de entrada e saída do sangue. Agora um sangue mais reptiliano. Um sangue frio. Reponho o coração na sua cavidade. Deito-me e deixo a ferida sarar. Será mais rápido sem o calor que fazia as carnes ebulir.

1 comentário:

Anónimo disse...

adorei este texto...!!! Acho que nunca li nada tao profundo e tao racional, ta lindo a forma como o descreves. Eu acabei de sentir o mesmo, mas de outra forma... talves por isso me tenha tocado..
ainda nao percebi o que fazes, mas ja percebi que tas nos açores... terra que ainda vou visitar...
sabes... as vezes precisamos perdermo-nos pa nos encontrarmos... as vezes é preciso perdermos o amor para aprender a amar... as vezes é preciso afastarmomo-nos para nos conseguirmos aproximar...
es sensivel!