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sexta-feira, fevereiro 06, 2009

O salto

- Estás bem?
- Sim... - responde com o olhar a vaguear pelo chão.
-... De certeza? Vá, que se passa?
Os olhos suspendem brevemente o seu passeio (- Nada...) para logo o retomarem.

No piso cimeiro de um prédio, um rapaz está sentado no parapeito da janela do quarto. Olha as fachadas apagadas em frente, sem vida. Dá um impulso com os braços e voa vagaroso. Cerra as pálpebras e, como vira nos filmes, espera recapitular as suas vivências. O significativo e o insignificante. O que pareceu importante e que ali se esfumaria num instante. O que desprezou e, de repente, o transtornaria por não o ter percebido anteriormente.
Espera, espera... Esperou, esperou... Pensa: "Nada... não se passou nada."
Abre os olhos, inspira e retesa o corpo que desce perpendicular ao solo. Os pés assentam. Todas as articulações cedem perante a pressão nelas exercida. O seu corpo abate-se ferozmente no cimento frio da rua. Por fim, a cabeça repousa com estrondo e espalha o seu conteúdo.
As luzes apagam-se.

quarta-feira, março 28, 2007

Recurso de personalidade

Talvez fosse um embuste para si próprio. Talvez sempre soubesse que não era real aquilo tudo em que se refugiava para desculpar o modo de agir. Haviam inúmeras limitações dentro de si e tentara construir em seu redor uma armadilha que captasse as atenções que de outra maneira lhe fugiriam. Reconhecia que não seria algo muito abrangente mas, no entanto, existia um determinado grau eficácia associado à persistência. Levou este seu papel tão a sério que acabou preso a ele, não sabendo, a certo ponto, se o que pretendia passar para fora seria parte de tal desempenho, ou realidade. De algum modo pareceu-lhe integrar as linhas de alguém, muito embora noutra categoria do sensível. Procurando bem num dicionário, que não forçosamente de magnifica colheita, poderia dar de caras com a palavra falsidade.
Caminhando neste reconhecimento pessoal, perguntava-se por que razão se andara a destruir. De algum modo, havia que encaixar na sua representação todas as mágoas consecutivamente preservadas em álcool, até que a sua memória começasse a evidenciar sinais de estar a derreter. Teria ainda que dar um destino aos dias declinados num fumo apetecivelmente ilusório, quando o único pensamento era acabar com apetência para tomar consciência de si. Afinal levara demasiadamente a peito o seu teatro e, apesar disso, os resultados revelam-se longe de satisfatórios. Ao fim e ao cabo, haviam sido meses e meses, anos mesmo, de um cinismo que anteriormente não reconhecia dentro de si. Nesse anteriormente, nada conseguira pelo seu eu, e agora esse mesmo eu, esfrangalhado pela actividade da personagem que criara, já não era capaz de se manifestar.
Estava sentado à mesa da cozinha, acompanhado pelo silêncio da casa. Todas estas deambulações tinham sido periodicamente interrompidas para encher de vinho o copo e cuja garrafa neste momento repousava vazia à sua frente. Decidiu-se a arrastar-se para a sala, onde na pequena garrafeira o esperava alguma garrafa de vodka.

quinta-feira, março 22, 2007

Fui ao baile da paróquia

Aproximei-me de ti. Não definiria o meu estado como nervoso. Antes cauteloso, talvez mesmo receoso. Não sei interpretar com eficácia as reacções das outras pessoas e, sempre com isso em mente, demoro a perceber a receptividade alheia à minha presença. Da conversa que iniciei, de tão banal que era, não recordo o tema. Alguma trivialidade idiota susceptível de provocar uma gargalhada e despertar concordância fácil. Palrámos agradados, a passear pelas vivências adquiridas. Procurei ler nos teus olhos o grau de satisfação pela minha companhia. Remoía-me durante todo o segundo em que percorriam a sala com vislumbres de interesse, ao ponto de o meu discurso quase tomar forma desconexa. Desesperei sempre que a tua fala parecia indiciar um fim de conversa. Na minha cabeça, nessas alturas, corria um extenso índex de temas e variações de conversação que tentava enquadrar de maneira mais ou menos lógica, só para que o teu sorriso rasgado permanecesse perto de mim.
Há momentos em que, na verdade, não pondero as minhas reais aptidões para uma tarefa e o ridículo que poderei vir a cair. Foi numa dessas ocasiões de inconsciência que procurei a tua mão e te puxei para mim. Vi surpresa no teu rosto e tu, em mim, terás visto algum espanto. Apercebi-me da indecisão que me corria no gesto decidido que praticara. Que pensava eu fazer? Tinha-te presa nos meus braços, com suavidade. A minha inconsciência rogava para conhecer o sabor dos teus lábios mas, na fracção de tempo que este repente utilizou, a consciência sobrepôs-se e falou-te por mim. Dançamos, disse. E dançámos. Talvez melhor descrito fosse, eu tentei fazer qualquer coisa que se parecesse com coordenação de passos e ritmos. Tentei seguir-te a perícia no rodopio. O meu corpo pedia-te contacto. Contacto e maior contacto e contacto mais ousado.
Corremos incessantemente a sala, alucinados pelo ritmo da música e do álcool. Quase não conversámos mais. Por vezes, entre duas músicas trocámos breves palavras, ou após o falhanço de um passo tecnicamente mais arrojado, comentávamos jocosamente a falta de perícia de quem errava. Sorríamo-nos e olhávamo-nos divertidos. Eu sentia-me deslumbrado com o prazer da atenção que me dispensavas. Tinha-te entre as minhas mãos. As trajectórias que tomavas, impelidas por mim ou de mote próprio, levavam-me a correr-te o corpo com as mãos em auxílio coreográfico. Agarrava-te para te lançar de novo em movimento livre e recuperar-te junto a mim, em abraço.
No final da noite, contrafeitos, tivemos que parar. As luzes haviam sido desligadas e a música há muito cessara. Apenas permanecia o tédio de quem fechava a casa e tinha de suportar os que retardavam o seu descanso. Dentro de nós ainda circulava um frenesim cansado em regime de auto-gestão corporal. Saímos para o amanhecer ameno que começava a apagar estrelas. Fomos percorrendo as ruelas da povoação misturando os passos arrastados com a conversa a tempos excitada, talvez desconexa. Nos ouvidos soava o chilrear madrugador das aves e amaldiçoámos a excitação avícola. Pedíamos silêncio.
As pernas transportaram-nos os corpos para os descampados nos arredores da aldeia. Sentados, calados, apoiando as costas um no outro, permanecemos de olhos fechados a ver o azul surgir para dominar o céu matinal. Os corpos resvalaram lado a lado e pediram para dormir.

domingo, março 04, 2007

Despertar

Cada vez eram menos os dias que começavam com vigor. O espreitar para além das cobertas que o abrigavam do ar frio da noite fazia-se perante um custo enorme. Tempo houvera em que as horas que teria por diante o despertavam de imediato. Punham-se na linha da frente as tarefas que iria realizar, organizando-se elas por prioridades de modo natural. Agora, todo esse processo requeria uma consulta de memória lenta e custosa. Alguns pontos gerais emergiam lentamente. Os detalhes permaneciam soterrados por lama encefálica, com os fios condutores aos princípios gerais e de prioridade em profuso rendilhado. O caminho que o levava até à arrumação dos pensamentos tornava-se tortuoso, com demoras, altos e baixos, esquecimentos e negligências, que resultavam em confusões e perdas de horas preciosas.
De quando havia entrado nesta via restava-lhe uma ténue lembrança. Talvez que fosse coisa para se arrastar há meses mas, no entanto, em nada estranharia se lhe dissessem que já eram anos. Tinha sim presente o facto de a busca interior dos porquês lhe ser indiferente. Considerava indiferente à falta de qualificativo mais desprezível.

sábado, março 03, 2007

Interacção

No decorrer dos anos acabou por desenvolver um sistema de restrição social. Em tal domínio fechava-se para proteger a notória incapacidade de estabelecer contactos pessoais. Quando dentro desse sistema, a proximidade de outras pessoas desencadeava uma rápida reacção de exclusão que o afastava da interacção com terceiros. Assim decorriam horas infindas de observação. Procurava recolher o máximo de informação acerca de tácticas e temáticas de aproximação. Dentro da sua cabeça desenvolvia-se um esforço enorme para sistematizar os dados recolhidos, com vista a uma futura aplicação. Quando, ainda não definira.
A cada momento decorrido, os centros de acção pediam-lhe para entrar em campo e usufruir do conhecimento entretanto adquirido. De modo cauteloso, os decisores mantinham-nos inactivos, expectantes. Recolhiam sempre mais informação, que nunca se considerava suficiente. Nos espaços de armazenamento, ela era emparcelada e compactada, por ordem de captação e definição para consulta dos modelos mais recentes, havendo sempre alguns moldes de antigos, mas considerados eficazes, que permaneciam em destaque.
Desta situação resultava uma enorme tensão, com os centros de acção a pressionarem os decisores para que ordenassem aos espaços de armazenamento a disponibilização de toda aquela informação em formato de execução. Questionavam ainda, e de forma constante, os armazenadores quanto à possibilidade de execução da sabedoria. Por outro lado, e perante esta inquirição, estes últimos acabavam por ajudar a sobrecarregar os decisores com as perguntas dos centros de acção. Em adição, os decisores deviam também manter exteriormente uma tranquilidade assimiladora para que não lhes fugisse nada de importante.
Perante isto eram inevitáveis os atritos e que muitas vezes, após prolongada duração, desencadeavam um processo de descontrolo interno. Os decisores ficavam impossibilitados de colher com precisão determinantes dados sociabilização e, simultaneamente, permitiam acções irreflectidas que nada contribuíam para a serenidade desejada na tarefa. Numa primeira fase, desencadeava-se a interrupção, ou deformação, da via de recepção e captação, necessariamente passiva, caracterizada por uma introspecção aparente. Posteriormente, a irreflexão dos actos exteriorizavam o colapso que decorria no âmago do sistema. Em regra, materializava-se acessos de raiva dirigidos a objectos alheios, ou por vezes, caros a si, podendo também ocorrer auto-punição, física e psicológica. Nos casos mais extremos, os quais evidenciavam o total colapso da estrutura de controlo e percepção, e à qual apenas ficava blindada a parte central de armazenamento e execução de acções, o alvo de agressão tornava-se a próprio fonte de conhecimento ou o objectivo de aproximação.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Alheamento

Deixou-se ficar sentado naquela sala mal iluminada. O seu olhar perdia-se na imensidão da parede branca em sua frente. Mirava e remirava cada ponto da parede como se cada ponto, igual ao anterior, tive a sua particularidade. Enconsto-se contra a almofada que havia nas suas costas. Afundou-se nela e procurou a melhor posição. Ficou-se na semi-escuridão a fixar a parede. Não havia som que lhe chegasse aos ouvidos. Não se pressentia qualquer movimento para além das quatro paredes que o rodeavam. Pela cortina que cobria o que pensava ser uma janela à sua direita entrava uma ténue luz e que lhe permitia ver o branco das paredes. Deixou-se estar.
Não tinha noção de quanto tempo teria passado naquela divisão. Uma hora. Duas horas. Quatro horas. Não sabia. Continuava na mesma posição, recostado. Apenas sentia o tenuíssimo movimento do peito ao respirar. De quando em quando apercebia-se do bater do seu coração. O olhar, esse continuava a deambular pelo vazio da parede em frente. Era algo de bizarro aquele compartimento e a sua presença nele. Continuou naquela imobilidade.
O tempo seguramente que passava. O tempo sempre passa, nunca se detem por razão alguma. O seu organismo não se queixava de nada e de nada, talvez, se apercebia. Apesar de não ter feito qualquer movimento não sentia necessidade disso. Nem para desentropecer as articulações. Como se ao longo daquele tempo as tivesse exercitado regularmente para não emperrarem quando fossem precisas. Não havia movido um dedinho do pé, nem um dedinho da mão. Igualmente estranho era ainda não ter sentido vontade de ir a uma casa-de-banho ou de comer. De alguma forma o seu corpo abdicára de necessidades, talvez.
Continuou sentado. Sempre na mesma posição. A respirar. Com o coração a bater. A olhar a parede. Parado. Tinha a nítida sensação de que mesmo querendo não lhe teria sido possível mexer. Nada o demoveria daquela inércia. Assim, prosseguiu no estado letárgico que se estendia já por um tempo indeterminável. Também a luz que entrava não sofria alteração de intensidade. Mínima que fosse. Não sentira correr a mais insignificante corrente de ar no quarto e a cortina que parecia ser bastante leve não se movera. Na sua cabeça, estava num quarto interior, pois caso contrário, face ao tempo a que julgava estar ali, já seria noite. Pelo menos a luz já teria enfraquecido com o declinar do dia.
Segundo, minutos, horas. Possivelmente muitas horas. No entanto, não sentia tédio algum por toda aquela inactividade prlongada. Não tinha necessidade de se levantar, de se mover, de mudar de posição. Era-lhe evidente que poderia, ao menos, deslocar-se até à cortina e espreitar o que haveria para lá daquele compartimento. Continuou sentado. Não teve mesmo qualquer intenção de se deslocar. Foi um pensamento no estado puro. Sem nenhuma ligação com centros motores do corpo. E continuou a olhar a parede.
Manteve-se assim, nada mudava. A parede continuava parcamente iluminada e os seus olhos a percorrê-la. Colhia-lhe todos os pormenores inexistentes. Unicamente o branco, sem variantes de tom. Apenas branco liso e uniforme. No entanto, mantinha a sua observação ininterrupta.
O tempo passava. Continuava sentado. A parede estéril no olhar. O tempo passava. Corria ou andava? Era-lhe indiferente, ali na sua imobilidade. Sem um esgar da face. Um espirro, um bocejo, um tossicar. Nada. Zero. Limitava-se a estar naquele compartimento e a olhar.

terça-feira, agosto 01, 2006

Remoção

Cravo as mãos sobre a esquerda do meu peito e pressiono com crescente força até sentir a carne penetrada pelas unhas. Fundo, cada vez mais fundo e sinto o sangue quente começar a escorrer por mim abaixo. Mobilizo todas as forças e continuo a enterrar as unhas. É tal o afinco com que o faço que me apercebo que os nós posteriores dos dedos já estão a entrar carne adentro e a tocar as costelas. Reteso os músculos do peito e forço mais as mãos a entrar na carne. Rodeio duas costelas com cada uma das mãos. Duas costelas sobre o coração. Afasto-as e com elas mais mais um pouco da carne do peito. Oiço o estalar dos ossos e institivamente olho para a proveniência do som. Arrepio-me com a cratera que provoquei em mim. Não esmoreço apesar da dor intensa que me alaga. O caminho para o coração está mais aberto que nunca. Obrigo-me mais ainda a abri-lo. Até que as mãos entranhadas na carne quente podem alcançar a pulsão de toda a minha vida. O motor, a fornalha.
Agarro no meu coração e sinto-o bater entre as mãos trémulas. Sinto o seu bater. Sangue que entra, sangue que sai. Vida que se recicla a cada batimento. Puxo-o. Puxo-o com todas as minhas forças e sinto-o cá fora. Tirei o coração do peito. Desprovo-o de todos os tubos que me alimentam. Impeço-o de renovar a minha vida. Será momentâneo. Olho-o ainda a pulsar entre as mãos. Falta pouco. Reuno toda a coragem, que ainda vai circulando em mim, nas minhas mãos e rasgo o coração. Introduzo-lhe os dedos bem lá dentro. Bem lá no fundo. Esgravato, rebusco, procuro, arranho.
Vou retirando pedaços e pedaços de uma substância quente e melosa. Retiro tudo aquilo que te poderia dar mas que apodrecia dentro do meu coração. Retiro aquilo que se disseminava e me apodrecia o corpo. Retiro-te de mim. Retiro o amor. Retiro o amor por ti. Retiro para nunca mais o sentir. Por ti, por mais ninguém. Acabou-se o amor que nunca era depositado, que sempre foi recusado. Estou mais leve. Mais frio. Mais morto.
Volto a ligar os canais de entrada e saída do sangue. Agora um sangue mais reptiliano. Um sangue frio. Reponho o coração na sua cavidade. Deito-me e deixo a ferida sarar. Será mais rápido sem o calor que fazia as carnes ebulir.

quarta-feira, julho 26, 2006

Descanso

Entrou no apartamento que alugára faziam agora quatro meses e meio. Havia sido uma tentativa de reinício. Seria a derradeira vez que tal aconteceria. Não tinha rescendido o contrato de arrendamento com o seu senhorio. De qualquer modo, na próxima moradia os advogados, caso viessem a ser chamados, e o juíz, por conseguinte, não o poderiam contactar.
Pousou a mala que transportava a tiracolo sobre o velho sofá negro e dirigiu-se ao quarto. Um diminuto compartimento desprovido de beleza e bom-gosto. Apenas uma curta cama de corpo- e-meio sem companhia de uma mesa-de-cabeceira, que para isso está lá o chão, uma mesa de cozinha meio desengonçada e a respectiva cadeira, a fazer as vezes de escreveninha, que em frente tinha um pequeno armário, para as suas roupas que gritavam por substituição, ao fundo da cama. Dirigiu-se à janela única do quarto e fechou-a, descendo-lhe as persianas. Nunca mais olharia as traseiras do prédio do outro ladop do beco. Um bloco gigantesco de curtíssimos apartamentos de baixo preço e qualidade sofrível, que lhe permitia ver a luz do dia das doze às quatorze. Um grande trabalho urbanístico! Aproximou-se do aquecedor a gás e ligou-o. Saiu em direcção à sala e voltou com um segundo aquecedor a gás que colocou, lado a lado com o anterior, ao fundo da cama. Acendeu-o também e regulou ambos a dois terços da potência. O frio não assim tão enregelador mas brevemente isso seria um pequeno detalhe. Pegou num toalhão de banho, do qual fez um rolo, e colocou-o a tapar o espaço entre a porta e o chão. Não entraria nem sairia ar. A duas toalhas de rosto deu-lhes a mesma função vedante mas agora aplicadas à janela. Começava a ficar abafado. Despiu-se, deixando-se ficar em roupa interior, e estendeu-se de costas sobre a cama.
A cabeça já estava vazia. Já liberta da angústia das últimas semanas. Passára o momento crítico da hesitação. O ponto de não retorno. Convencera-se e afastára qualquer remorso do seu acto. Estaria livre e dormiria profundamente. Em breve começaria a sentir invádi-lo uma pesada sonolência e nada faria para lhe resistir. O sono retemperador dos espíritos, seja bem-vindo.
Levantou um pouco a cabeça e assegurou-se que sobre a mesa descansava o recado escrito para quem quer que fosse que o viesse tentar acordar.
Pois então, pensou, venha a mim o doce produto da combustão.

A quem isto encontrar e a quem de direito. Seja lá quem for!
Espero que compreendam este gesto que, enfim, veio para me salvar da angústia e apodrecimento da minha alma. Do meu "eu" há muito tempo apagado. Já não o suportava!
Agora, tomada a decisão, estou leve e, quem sabe, virá algo melhor. O desespero de vos ver desiludidos de mim levou-me, implacavelmente, à desilusão de mim próprio. Não me suportava.
O desespero auto-mutilativo não me era permitido por não aguentar em demasiado a dor. A decadência, o álcool, as drogas, a displicência de mim, apagavam-me para vocês. A mim, tudo isso me queimava e ardia no coração sem conseguir alienar-me.
Apenas peço desculpa por só agora conseguir chegar ao fim e vos ter desiludido tanto.
Até sempre e sempre vosso.

quarta-feira, julho 05, 2006

Cancerosamente

Olham-se os dedos encardidos de anos a fio de fumo em fuga do cilindro de nicotina. Pensa-se no sabor desértico que envolve a boca e que antecede a acção poluidora nos pulmões. Acende-se o cigaroo manual e olha-se a mortalha a ser consumida pela combustão. Os olhos irritam-se a ponto de quase lacrimejarem o fumo invasor. Os dígitos sentem o calor que se aproxima irreversivelmente. A porção inferior do objecto de inconsciente prazer mórbido humedece de saliva que dissolve o amarelo tórrido dos fiapos de tabaco. Uma última aspiração que queima os lábios e as unhas. Está acabado o cigarro. Apaga-se. Outro virá.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Em erro

Quero que desapareçam todas da minha vida, género maldito. Quero que desapareçam dos meus dias. Quero que desapareçam todas das minhas memórias. Quero que desapareçam todas do meu coração.
Maldito seja tu, órgão propulsionador do corpo humano. Que fraco és perante a belezas que te foram apresentadas. Nunca conseguiste aguentar a pressão de estar vago. Nunca a liberdade te aprazou. Com medo de estar morto foste saltando de frustração em frustração porque deste modo podias dizer que sofrias com algo nobre e belo apesar de tudo isso te apertar de forma esmagador após maravilhado do impacto e depois da descoberta da anunciada recusa.
A frustração encheu-te sempre e continuas a cair em erro.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Passo final

Apesar de insistir para que não o fizesse, continuei. As suas lágrimas incomodavam-me mas não quis saber disso. Para quê estas lágrimas? Mais um empecilho à minha decisão de acabar com aquilo. Depois seria tudo melhor, sem ela. Pareciam mesmo reais a dor e o sofrimento que ela tentava expressar. Pareciam, digo eu, ela dizia que aquilo era verdadeiro. Não era para que eu tivesse dó. Eu continuei como se não houvesse amanhã. E não haveria mesmo.
Aproximei-me dela, fiquei a escassos centímetros. Mostrava-lhe o que acabaria com o sofrimento. Vi nos olhos dela o terror. Pus-lhe a mão sobre a esquerda do peito e senti o palpitar vertiginoso do seu coração. Vai daí e ela estava mesmo aterrorizada com o que pensava que e iria suceder! Quem sabe? O seu rosto deformado chorava uivando perante a possível perda da vida.
Possível, não. Iria mesmo acontecer.
Ouvia implorar e rogar que não, que não continuasse. Apetecia-me bater-lhe, já me incomodava. No entanto, nunca seria capaz de a agredir e manchar as minhas mãos com tal acto. Prossegui tentando ignorar os seus gritos de que tudo seria diferente daí em diante e retomaríamos um caminho harmonioso e feliz.
Não quero saber. Vou ter de acabar com tudo rapidamente porque também já me sinto extenuado. Cansado. Esta tortura já dura largos minutos e tencionava despachar isso muito rapidamente. Tinha sido um caminho de flagelo mas tudo superficial. Os golpes aplicados com teriam dado um bom quadro de sentimentos confusos sobre uma tela. O peito era uma mancha penosamente confusa de rasgões sobre a carne com lascas ainda pendentes, outras espalhadas já pelo chão daquele compartimento. O mindinho arrancado dolorosamente era caminhado por formigas que cruzavam o assoalhado. As membranas interdigitais não existiam, o palmo havia aumentado. Fios de sangue escorriam pernas abaixo. Vários centímetros foram penetrados em carne até sentir tocar o fémur e a perna parecer em postas. O sorriso que havia sido elogiado anteriormente alargara-se à direita com um extenso lábio inferior pendente. Vislumbravam-se dentes abundantemente ensanguentados.
A tudo isto ela tinha dito não, não faças isso! Tinha chorado copiosamente em dor, disse ela, a cada mutilação. Só faltava o passo final.
Havia sido uma grande compra para o trem de cozinha aquela faca de trinchar sempre mantida bem afiada. Aproximei-a da garganta perante o choro convulsivo e gritos lancinantes. Só faltava isto. Gesto rápido e cirurgicamente preciso, desfilou profundamente da esquerda para a direita, torneando o pescoço, apanhando num segundo jugular e garganta, rasgando todos os tecidos à passagem. Um jorro de quente desceu peito abaixo na carne descoberta do peito.
Já quase não a ouvia. Ansiara a aquele momento há algum tempo e havia chegado. Felizmente. Sentira apenas uma fria e aguda dor correr o pescoço, a dor de carne cortada. Tudo estaria acabado em breves segundo. Deixei-me cair no chão, aliviado. As últimas convulsões de um corpo que se esvai de vida. Ela continuava do outro lado da grade que nos separava naquele compartimento.
Poderia ter sido de outra forma mas já não suportava a pressão de viver a teu lado, nem a certeza de te ver não te tendo a meu lado. Fechei os olhos e vi pela última vez o teu rosto vivo.
Morri…

quarta-feira, novembro 02, 2005

Cinza

Um dia houve em que olhou da almofada de sua cama para lá do vidro da janela e o único pensamento que lhe passou pela cabeça foi se hoje já seria amanhã. No dia anterior, lembrou, havia tido o mesmíssimo pensamento. Será que hoje já é amanhã? Isto torna-se cada vez mais uma ideia recorrente. Será que se deveria preocupar com esta repetição? Talvez não. Provavelmente é só mais uma fase. Mas que raio de fase é esta, homem?
Está cinzento o céu lá fora. Nem apetece levantar. Mesmo nada. Vai deixar-se ficar. Só mais cinco minutinhos. Ainda para mais apanhou frio ontem à noite e agora o nariz entupiu, a cabeça pesa. Custa respirar. Mais cinco minutos.
Fecha os olhos e tenta pensar em coisas agradáveis que o possam fazer sair do confortável dos lençóis. Não seria difícil à primeira vista. As superfícies. Então, e algo pelo qual valha mesmo apenas levantar? Fecha ainda mais olhos como quando criança para afastar os medos maiores. Engraçado que se fecharmos os olhos com maior força os medos não são tão susceptíveis de nos atingir. Nada.
Está bem, vamos lá! Ah, convicção! Isso mesmo rapaz. Vamos preparar-nos para mais um dia premonitório. Mais vinte e quatro horas de visibilidade indiferente. Vamos fingir que temos relevo. Uma banhoca para acordar. Água quente sobre a cabeça para que a dureza da manhã não apague logo o conforto da noite dormida. No final, arrefece-se a água alguns graus para sentir a contracção muscular e o corpo vivo. Que bem se está!

quarta-feira, outubro 12, 2005

Acalmia

Num momento de acalmia resolveu dar-lhe um beijo. Ela chorava inaudivelmente. Como seria possível ter feito tal coisa. A rapariga já não se conseguia levantar. Provavelmente partiu-lhe qualquer coisa. Teria sido o pontapé que lhe havia enviado ao joelho ou teria sido o facto de lhe ter pisado esse mesmo joelho quando ele se encontrava totalmente esticado. Já não se lembra. O mais certo é que ambas as acções tenham levado a tal fim.
Afastou-se dela e foi sentar-se ao fundo da cama. Acendeu um cigarro e inalou profundamente o fumo. Sentia a ira a dissipar-se naquele pedaço de vício. Tremia já menos. Já não ouvia a rapariga. Tinha-a eliminado do seu presente. Daquele momento. Por que razão a havia iniciado a espancar não sabe. Não era por ciúmes pois não mantinham qualquer tipo de relação, para além de serem simples conhecidos de café. Não era por repulsa porque até lhe agradava o ar alegre, descontraído mas com traços de quem observa tudo atentamente. Na realidade, não haviam razões.
Apenas lhe apetecera. Primeiramente queria só assustá-la. Talvez nem isso. Tinham estado a conversar e conversa tornara-se sussurrada. Sentia-se uma tensão aproximadora. Falavam cada vez mais por monólogos pois o movimento dos seus lábios era quase exclusivamente o da aproximação mútua. Estavam prestes a beijarem-se.
O impacto do primeiro estalo pô-la sangrar do nariz. A rapariga olhou-o estupefacta. Que se estaria a passar ali? Nada fazia esperar isto. Que lhe teria passado pela cabeça. O seu olhar inquiridor recebeu os nós dos dedos dele em cheio no sobrolho. Saiu-lhe um grito doloroso da garganta. Breve, muito breve foi esse grito. Ele lançou-lhe as mãos à garganta abafando-o. E não parava de apertar enquanto lhe desferia violentas joelhadas no abdómen e no abaixo ventre.
Olhou-a fundo nos olhos. Via-os injectados de medo. Injectados de sangue aterrorizado. Atirou-a com força de encontro à mesa onde embateu com violência ruidosa. Não havia problema, estavam sós em casa. A rapariga tentou recompor-se. Viu-a virar-se e procurar a porta. Estava para trás dele. Ele aproximou-se e pontapeou-a fortemente o joelho, fazendo-a vergar-se e agarrar-se ao joelho ardente em dor.
Estava confusa. Não percebia. Não gritava, não pedia ajuda. Tinha o pensamento parado pela perplexidade. Sentiu então uma lancinante dor na boca. Percebeu que tinha sido violentamente pontapeada na boca. Sentiu o sabor quente do sangue encher-lhe a boca e escorrer-lhe pelo queixo abaixo. Cuspiu e viu dois dentes voarem em direcção ao chão. Sentiu vontade de vomitar. Quando iria este sufoco parar?
Ele ganhou fôlego e agarrando-lhe fortemente os longos cabelos com uma mão. Agitou-lhe a cabeça ferozmente. Começou a esmurrar-lhe a cabeça. Estava a ficar cansado mais ainda não conseguia parar. Sentia uma demoníaca adrenalina correr-lhe as veias. Enfim atirou-a para uma cadeira. Ela acabou por se sentar refastelada. Pernas esticadas. Pernas esticadas, pensou ele. Pisou o joelho direito. Foi o último e longo grito que ela lançou, caindo ao mesmo tempo da cadeira.
Ela chorava. Rogava silenciosamente para que tudo parasse. Que tudo fosse um pesadelo. Mas e as dores? Dizem que os sonhos são indolores. Viu-o aproximar. Poderia ser desta vez que acabasse com aquele sofrimento e a matasse. Ele agachou-se e beijou-lhe a face, afastando-se para se sentar e fumar.
Agora estava feia. Esmurrada, ensanguentada. Não era a mesma que o acompanhara a casa no início deste serão. Levantou-se e olhou-a com nojo. Como poderia ter feito isto? Levantou o pé e assentou-o com toda a força que possuía sobre o pescoço da rapariga
“Claro que foi o joelho! Até se ouviu o barulho quando o pisei!”